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O cartunista e artista gráfico Lailson de Holanda Cavalcanti lança,
pela Companhia Editora Nacional, Lusíadas 2500, obra que
retrata a epopéia de Luís Vaz de Camões mil anos
depois.
Os versos e a linguagem da obra-prima de Camões foram preservados
nessa nova edição, o que mudou foi o tempo e o espaço.
O artista transportou a saga para o ano de 2500, transformou caravelas
em naves espaciais, argonautas em ciborgues e ilhas em asteróides.
Deuses, gigantes e sereias foram convertidos nos “monstros sagrados”
contemporâneos como as supermodelos, astros pop e heróis
galáticos.
Como surgiu a idéia de relatar em quadrinhos
a fantástica obra Os Lusíadas de Camões?
A História
sempre foi um dos meus temas preferidos. Em 2004 publiquei pela Companhia
Editora Nacional meu livro em quadrinhos Pindorama – A outra História
do Brasil, na qual um personagem fictício da esquadra de Pedro
Álvares Cabral, o lavador de convés Vasco Cuínas
del Mangue, entra em contato com as entidades da mitologia nativa brasileira
e viaja através do tempo, atravessando a História da Terra
das Palmeiras (ou Pindorama – nome que os nativos davam a este país)
até aos dias de hoje, numa visão crítica e satírica.
O sucesso do livro foi muito bom e ele já está sendo adotado
por várias escolas como literatura de apoio didático. Em
decorrência disto, numa conversa com a Diretoria Editorial da Nacional,
surgiu a idéia da produção dos Lusíadas.
Como, além de História, ficção científica
é outra das minhas paixões – assim como os quadrinhos
– apresentei a sugestão de ousarmos uma abordagem completamente
diferente para a obra de Camões, deslocando-a para o século
XXVI para transmitir de forma mais emocionante a grande aventura que foi
o projeto de navegações do século XVI.
A que se deve esta adaptação para o futuro? Será
então a obra e mensagem de Os Lusíadas de Camões
um presságio necessário e válido para tempos vindouros?
Atualmente
as pessoas têm dificuldade em compreender a complexidade tecnológica
e estratégica envolvida nas navegações do século
XVI. Tudo parece ser reduzido a embarcações primitivas singrando
os mares e a uma visão simplória do feito em toda a sua
amplitude. As motivações políticas, técnicas,
econômicas e sociais tendem a ser colocadas numa vala comum de “registro
histórico” como se fossem coisas que aconteceram num passado
remoto e que não têm relação com o que ocorre
nos dias de hoje.
Deslocando a ação para 1000 anos no futuro, podemos trazer
de volta para um público que não tem a exata dimensão
do que sucedeu a grandeza do esforço realizado para desbravar um
planeta que ainda tinha terras e povos desconhecidos, onde a ignorância
e a superstição obscureciam a ciência. Se, no entanto,
a proposta fosse apenas fazer uma adaptação, creio que seria
reduzir a obra camoniana a uma simples referência ou a um ponto
de partida para o livro e não foi essa minha intenção.
O texto integral do poema Os Lusíadas está presente na obra
Lusíadas 2500 e a narrativa gráfica conta uma história
de navegações semelhante à descrita no poema, porém,
com uma encenação completamente diversa. “Lendo-se”
as imagens, “ouve-se” uma história que traduz de forma
diferente o que os versos “mostram”. Curiosamente, as navegações
do passado descrevem bem os contrastes e confrontos de culturas ocidentais
e orientais que hoje estão também presentes no nosso cotidiano.
Construir um futuro em que estas incompreensões e conflitos sejam
superados é tarefa para os “argonautas” contemporâneos
a fim de que no futuro a raça humana conviva melhor, aqui, se existirem,
com os habitantes de outros planetas.
Quem será, neste caso, o público-alvo desta história?
Creio existir não um, mas vários públicos-alvos:
1 - O leitor habitual de quadrinhos que consome em livrarias especializadas,
pois o livro é uma proposta inovadora em termos de apresentação
de um clássico literário em forma de arte seqüencial;
2 - Professores de Língua Portuguesa, Comunicação
e História, pois a obra permite traçar paralelos entre diferentes
períodos históricos, transmissão de conteúdo,
estilos e formas de comunicação visual e literária,
análise comparativa e interpretativa de uma obra clássica
da Literatura Portuguesa;
3 - Leitores de ficção científica, pela abordagem
da obra que inclui características, referências e similitudes
visuais com o gênero;
4 - Estudiosos de quadrinhos, por todos os aspectos acima e pelo fato
de uma obra de uma magnitude tal como Os Lusíadas haver sido incorporada
e apresentada por meio da narrativa gráfica da arte seqüencial;
5 - Leitores de Camões, pelo interesse em conhecer uma obra que
interpreta de uma nova maneira o maior poeta da Língua Portuguesa;
Com essa obra, os jovens terão mais facilidade em entender/compreender
Camões?
Acredito que sim, pois visualmente a obra agora pode ser compreendida
de uma forma mais familiar ao leitor de hoje. O texto, que permanece integral,
dá a oportunidade de tomar contato com a obra original da maneira
como ela atravessou os séculos, com o português na sua forma
antiga. Se pudéssemos ouvir um poema do século XXVI,com
certeza ele também soaria estranho aos nossos ouvidos.
Então, fazendo esta fusão da narrativa literária
com a narrativa visual, a obra pode ser compreendida em diferentes níveis
de leitura, preservando sua originalidade e permitindo uma percepção
mais ampla do seu significado.
Aponte os desafios para a realização desse projeto.
O primeiro
deles foi decidir o estilo gráfico. Meus trabalhos mais conhecidos
ao longo dos anos sempre privilegiaram o estilo cômico, principalmente
por ter publicado diariamente, por 27 anos em um mesmo jornal, charges
e caricaturas políticas. Porém, interpretar Os Lusíadas
requer uma encenação épica, clássica e, ao
mesmo tempo, moderna. Então voltei a desenhar num estilo que havia
deixado “no estaleiro” em termos de grande público
e que só era conhecido de um círculo de amigos mais próximo,
que é o meu estilo de ficção científica.
E isto, claro, dando credibilidade visual aos cenários, ao contexto
e à interpretação dos personagens em todo o espaço
cênico onde as ações se desenrolam.
O segundo grande desafio, na verdade, era maior ainda que o primeiro:
como traduzir uma obra feita originalmente para ser ouvida numa obra que
pudesse ser compreendida visualmente sem cair no lugar-comum. A linguagem
da época de Camões evoca as imagens descrevendo-as através
de referências culturais que no seu tempo eram claras, mas que atualmente
são rebuscadas e eruditas. Simplesmente ilustrá-las não
seria a solução.
O trabalho de pesquisa, então, tomou bastante tempo para que eu
pudesse compreender melhor a obra do poeta e encontrar a narrativa gráfica
que melhor pudesse apresentá-la sob a minha visão pessoal.
E isso tudo, claro, tratando-a como uma verdadeira história em
quadrinhos e não, simplesmente, como um “Lusíadas
Ilustrado”. A história em quadrinhos é o formato da
obra que estou apresentando em Lusíadas 2500 e ela tem
de ser lida e compreendida como tal pelo apreciador de quadrinhos, assim
como apreciador de Camões tem de encontrar nela também o
que ele busca, ou seja, a autenticidade e o respeito ao poema original.
A transposição temporal para diante ao invés de para
trás me permitiu maior liberdade de expressão, pois estou
falando de um futuro que poderia estar acontecendo numa realidade alternativa,
onde a Lusitânia no século XXVI seria hegemônica como
Portugal foi hegemônico no século XVI. E, ao mesmo tempo,
estou falando de personagens reais que viveram há 500 anos, mas
que, como em um filme, não serão “exumados”
de um passado estático, mas sim, serão recriados por meio
de “atores” gráficos em uma encenação
futurista.
Sobre o autor – O pernambucano Lailson de Holanda
Cavalcanti começou a publicar suas charges aos 17 anos no jornal
The Pine Cone (Arkansas, EUA) e iniciou a carreira profissional
na imprensa brasileira em 1975 em jornais de Pernambuco. Por 27 anos (1977/2005)
publicou charges diárias no Diário de Pernambuco.
Também publicou em veículos como Pasquim, MAD (edição
brasileira), Revista Visão, Veja 28 Graus, KYX 93, Florida
Review, O Europeu (Portugal), Revista Bundas, Revista Palavra,
O Pasquim 21, Miami Herald e Jornal do Brasil. Foi também
um dos pioneiros no movimento de humor e quadrinhos pernambucano surgido
nos anos 70. Entre os prêmios que recebeu destacam-se o primeiro
lugar no Salão Internacional de Humor de Piracicaba em
1977 (onde também recebeu o Prêmio Imprensa em 1985), nos
salões de humor de Montreal/Canadá (1983 e 1985), de Minas
Gerais (1985) e de Portugal (1994). Fez exposições individuais
em Portugal e Espanha e participou de coletivas no Japão, na Alemanha,
na Bulgária, na Turquia e na Espanha. É autor dos livros
O que Vier eu Traço (1981), Democracia pra mim é
Grego (1984), Esta Vida é um Circo (1989), Cartas
de Pindorama (1989), Pindorama – a outra História
do Brasil (2001), Retrato Oficial (2002) e o Livro do Bom-humor
(2005). Como pesquisador de humor gráfico lançou Humor
Diário (1997) e História del Humor Gráfico
en el Brasil (Espanha/2005). Também desenvolve personagens
e revistas “quadrinizadas” para educação e conscientização
nas áreas fiscal, de trânsito, energia e cidadania. Criador
e organizador de salões nacionais e internacionais, como os de
Pernambuco (1983 e 1984), do Recife (1986), do Humor na Imprensa
(1991), do Seminário O Humor na Imprensa do Ano 2000 (1998)
e do Festival Porto de Humor (2005), criou e foi curador do Festival
Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco de 1999 a 2005.
Membro fundador da ACB – Associação dos Cartunistas
do Brasil e também da Associação dos cartunistas
de Pernambuco, foi o primeiro presidente desta última de 2001 a
2004.
E para conhecer um pouco mais o trabalho desse artista, acesse o site
www.lailson.com.br
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